Dengue. A luta continua

25 janeiro 2017
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Mosquitos transmissores da dengue são utilizados no combate à doença. Técnica desenvolvida no Brasil usa fêmeas de ‘Aedes aegypti’ e ‘Aedes albopiuctus’ para levar doses de inseticida a criadouros de difícil acesso ao homem.

A técnica foi criada por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e do Instituto Leônidas e Maria Deane, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) na Amazônia.

O método para combater a dengue transforma o próprio mosquito transmissor da doença em agente para controlar epidemias. Ou seja, mosquitos adultos levam no seu próprio corpo inseticida a criadouros ou locais inacessíveis às equipes de controle da dengue.

A estratégia funciona da seguinte forma: as fêmeas do Aedes aegyptie Aedes albopiuctus, transmissoras da doença, são atraídas para as chamadas estações de disseminação.

“Essas estações consistem em pequenos baldes com água parada limpa, principal foco do mosquito”, explica o biólogo Sérgio Luz, da Fiocruz Amazônia. “Elas servem como armadilhas atrativas para as fêmeas depositarem seus ovos. Quando um mosquito adulto pousa na superfície da estação de disseminação, pequenas partículas do inseticida grudam em suas pernas e seu corpo.”

“Depois de contaminados, os mosquitos carregam o inseticida e contaminam a água de outros criadouros, matando as larvas já depositadas”, afirma o biólogo. Ele explica que o pyriproxyfen é um larvicida aprovado pela Organização Mundial da Saúde, atóxico para seres humanos e que ataca apenas as larvas dos mosquitos. “Por isso, os insetos contaminados continuam vivos e conseguem carregá-lo”, diz. “As larvas desses mosquitos não atingem o estágio adulto, pois morrem entre 5 e 7 dias de formação.”

A estratégia desenvolvida pelos pesquisadores brasileiros usa pequenos baldes com água parada e limpa (que funciona como isca para os mosquitos) e um inseticida nas bordas. Ao pousarem nos baldes, os insetos são contaminados e depois levam o veneno a criadouros de difícil acesso.

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O pesquisador acrescenta que muitos dos criadouros de Aedes aegypti e Aedes albopiuctus são pequenos e ficam em locais escondidos, o que os torna difíceis de detectar. “Ninguém conhece melhor os lugares em que estão os criadouros do que os próprios mosquitos – por isso, eles são os ajudantes ideais”, comenta.

Estudos em campo

Os primeiros testes com a nova estratégia se iniciaram em 2009, no bairro de Tancredo Neves, em Manaus (Amazonas). “Passamos três anos monitorando a área antes de aplicar a técnica”, afirma Luz.

O biólogo conta que, por um período de 20 meses (antes, durante e depois da colocação das estações de tratamento), foram monitorados cerca de 150 criadouros nos quais não havia sido aplicado inseticida. O crescimento até a fase adulta e a mortalidade das larvas nesses criadouros foram então calculados.

Segundo ele, os resultados obtidos são animadores: a mortalidade de larvas aumentou muito e o número de mosquitos adultos diminuiu de forma impressionante. “Antes de colocarmos em prática o método, havia uma mortalidade de, no máximo, 10% das larvas dos mosquitos”, diz. “Com a execução da nova estratégia, a taxa de mortalidade das larvas foi superior a 90%.”

Luz: “Com a execução da nova estratégia, a taxa de mortalidade das larvas foi superior a 90%”.

A aplicação da técnica está agora sendo estendida para a cidade de Manacapuru, a 68 quilômetros de Manaus. A área foi monitorada durante um ano e meio e há um mês foram colocadas cerca de mil estações disseminadoras.

Os pesquisadores acreditam que o estudo na cidade de Manacapuru deve ser finalizado em julho deste ano. “Após a obtenção desses resultados, poderemos talvez buscar uma forma de empregar a estratégia em outros municípios do país”, finaliza Luz.

Para o biólogo, o método será uma importante ferramenta no controle da dengue. Segundo ele, a estratégia também poderá ser utilizada para o combate da febre amarela e da febre chikungunya, transmitidas pelos mesmos mosquitos.

Outros métodos que usam o próprio mosquito para combater a disseminação da dengue já chegaram ao país. Um deles, desenvolvido na Universidade de Oxford, na Inglaterra, prevê a soltura de Aedes aegypti machos transgênicos que, ao copular com fêmeas normais, geram filhotes inviáveis. O outro, criado na Austrália e trazido para o Brasil pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), usa a bactéria Wolbachia para contaminar os mosquitos e bloquear o desenvolvimento do vírus transmissor da doença nos insetos e em seus filhotes.

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